Tutancâmon: o que a tomografia e o DNA revelaram sobre a morte do faraó
Durante décadas se especulou que Tutancâmon teria sido assassinado com um golpe na cabeça. A ciência desfez o mito. Tomografias e análises de DNA divulgadas em 2010, publicadas no Journal of the American Medical Association, indicaram que o faraó era um jovem frágil, com uma fratura na perna e infecção por malária, combinação que provavelmente causou sua morte por volta dos 19 anos.
A origem da lenda do assassinato
A hipótese do crime nasceu de um achado radiológico antigo, que mostrava um orifício no crânio da múmia. Para muita gente, aquilo parecia a prova definitiva de um golpe fatal, e a história do faraó assassinado ganhou o mundo. O problema é que uma imagem, sozinha, não conta o contexto. Foi preciso esperar tecnologia melhor e um olhar propriamente forense para reinterpretar o achado, e o resultado mudou completamente a narrativa.
O que a tomografia mostrou
Quando a múmia foi submetida a tomografia computadorizada, em 2005, os pesquisadores concluíram que o orifício no crânio havia sido produzido durante o processo de mumificação, e não por um ataque. O mesmo exame, porém, revelou algo que ninguém esperava: uma fratura importante na perna esquerda, sem sinais de cicatrização. A ausência de consolidação é um detalhe técnico decisivo, porque indica que a lesão ocorreu pouco antes da morte, e não anos antes. É exatamente o tipo de raciocínio que a antropologia forense aplica todos os dias.
O DNA e a saúde frágil do faraó
A etapa seguinte foi genética. As análises de DNA da múmia e de outras da família revelaram material genético do parasita causador da malária, um dos registros mais antigos já isolados do agente. O estudo também apontou uma série de condições que atingiam o faraó, entre elas fenda palatina, um problema no pé e uma doença óssea que comprometia a irrigação sanguínea daquela região. O retrato que emerge é o de um rei jovem, doente e provavelmente dependente de bengalas para andar, bem distante da imagem robusta sugerida pelos tesouros do túmulo.
A conclusão dos pesquisadores
Reunindo tudo, a equipe concluiu que uma fratura súbita na perna, possivelmente causada por uma queda, teria se tornado uma condição de risco de vida quando somada à infecção por malária, num corpo já debilitado por doenças congênitas. Em um mundo sem antibióticos, uma fratura exposta e uma infecção grave formavam uma combinação frequentemente fatal. Vale notar a honestidade científica do enunciado, que fala em probabilidade, e não em certeza absoluta, porque é assim que se trabalha com evidências.
O que esse caso ensina sobre a perícia
O caso de Tutancâmon é uma aula de método. Ele mostra como a tecnologia de imagem revê conclusões antigas, como a ausência de cicatrização em uma fratura ajuda a datar uma lesão em relação à morte e como diferentes linhas de evidência, imagem e genética, se somam para construir uma explicação sólida. São exatamente os princípios que sustentam a medicina legal moderna, aplicados a um corpo que morreu há mais de três mil anos. A curiosidade sobre como Tutancâmon morreu acabou ensinando muito sobre como investigar qualquer morte.
Perguntas frequentes
Tutancâmon foi assassinado?
A hipótese perdeu força. A tomografia indicou que o orifício no crânio foi produzido durante a mumificação, e não por um golpe, e os estudos apontam causas ligadas a doença e fratura.
Como Tutancâmon morreu?
Segundo o estudo publicado no JAMA em 2010, provavelmente por complicações de uma fratura na perna agravadas por malária, em um corpo já debilitado por doenças congênitas.
Como se descobriu isso?
Por meio de tomografia computadorizada da múmia e de análises de DNA dela e de outras múmias da mesma família, feitas ao longo de dois anos.
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Referências
- Hawass Z. et al. “Ancestry and Pathology in King Tutankhamun’s Family”. Journal of the American Medical Association (JAMA), fevereiro de 2010. Disponível em jamanetwork.com.