Ruínas arqueológicas de Pompeia, na Itália
21/08/2026

Pompeia: o DNA que desmontou as histórias contadas pelos moldes de gesso

Por admin

Os moldes de gesso de Pompeia são célebres e vieram acompanhados de histórias comoventes sobre mães abraçando filhos e casais unidos na morte. Um estudo de DNA publicado na Current Biology em 2024 mostrou que sexos e relações de parentesco não correspondiam a essas narrativas, dando uma lição sobre o perigo de projetar suposições sobre um corpo.

Como os moldes surgiram

A técnica é engenhosa e nasceu no século XIX. Após a erupção do Vesúvio, em 79 d.C., as cinzas envolveram os corpos e endureceram. Com o tempo, os tecidos moles se decompuseram e deixaram cavidades que preservavam a forma exata das pessoas no momento da morte. O arqueólogo Giuseppe Fiorelli percebeu isso e passou a injetar gesso líquido nesses vazios, produzindo moldes que reproduzem posturas, roupas e até expressões. Foi assim que se criaram mais de uma centena de moldes, entre as milhares de vítimas encontradas.

As histórias que se contaram

Diante de figuras tão expressivas, era quase inevitável que narrativas surgissem. Um adulto próximo a uma criança virou uma mãe protegendo o filho. Duas figuras lado a lado viraram irmãs, ou um casal de amantes. Essas leituras foram repetidas por gerações, em museus, livros e documentários, e se tornaram parte da identidade do sítio arqueológico. O ponto delicado é que elas nasceram da aparência e da posição dos corpos, e não de qualquer evidência biológica.

O que o DNA revelou

A oportunidade científica

Durante um trabalho de restauro iniciado em 2015, exames de imagem mostraram que os moldes não continham esqueletos completos, mas guardavam fragmentos ósseos. Também revelaram que restauradores do passado haviam manipulado as peças, alterando formas e inserindo hastes metálicas. Foram justamente esses fragmentos acessíveis que permitiram a análise genética.

Os resultados

A equipe, que reuniu instituições italianas e norte-americanas, obteve DNA e dados isotópicos e concluiu que os sexos e as relações familiares dos indivíduos não correspondiam às interpretações tradicionais. O adulto tido como mãe, por exemplo, não era o que se supunha, e vínculos de parentesco assumidos não se confirmaram. O estudo apontou ainda que a população de Pompeia descendia, em boa medida, de imigrantes recentes do Mediterrâneo oriental.

A lição que vale para qualquer perícia

Os próprios autores resumiram bem o aprendizado, ao observar que suposições modernas sobre comportamento e papéis de gênero não são lentes confiáveis para interpretar dados do passado. Traduzindo para a prática forense, o recado é direto: aparência e posição de um corpo sugerem hipóteses, jamais fatos. Quem conclui a partir do que parece corre o risco de construir uma história inteira sobre uma base errada, e depois defendê-la por décadas.

Por que isso interessa a quem trabalha com o corpo

Esse caso é um excelente antídoto contra um vício comum na área, que é o de completar as lacunas com imaginação. O profissional das Ciências Mortuárias, seja na necropsia, seja na identificação, precisa registrar o que observa e deixar que a evidência conduza a conclusão. Pompeia mostra que até uma imagem carregada de emoção, capaz de comover o mundo por 150 anos, pode estar contando a história errada.

Perguntas frequentes

Como foram feitos os moldes de gesso de Pompeia?

O arqueólogo Giuseppe Fiorelli injetava gesso líquido nas cavidades deixadas pelos corpos decompostos dentro da cinza endurecida, reproduzindo a forma das vítimas.

O que o estudo de DNA de 2024 descobriu?

Que os sexos e as relações de parentesco dos indivíduos não correspondiam às histórias tradicionais atribuídas aos moldes, como mães com filhos e casais.

Qual a lição do caso para a perícia?

Que a aparência e a posição de um corpo geram hipóteses, e não fatos. Interpretações baseadas em suposições podem se consolidar como verdade sem qualquer base biológica.

Onde estudar Ciências Mortuárias

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Referências

  • Pilli E. et al. “Ancient DNA challenges prevailing interpretations of the Pompeii plaster casts”. Current Biology, novembro de 2024. Disponível em cell.com.