Como é feita uma necropsia: as etapas do exame explicadas
A necropsia é feita em seis etapas principais: recebimento e identificação do corpo, exame externo, abertura das cavidades, exame interno dos órgãos, coleta de amostras e recomposição. Todo o procedimento é conduzido por um médico, legista ou patologista, com o apoio do auxiliar de necropsia. O objetivo é esclarecer a causa da morte e, nos casos de interesse da Justiça, reunir elementos para a investigação. Ao final, o médico elabora o laudo e o corpo é liberado à família.
Para que serve a necropsia
Antes de ver como é feita uma necropsia, vale entender para que ela serve. O exame responde a perguntas que não podem ser resolvidas de outra forma. Em mortes naturais sem causa conhecida, ele mostra qual doença levou ao óbito, informação que interessa à família e à saúde pública. Esses casos são atendidos pelos serviços de verificação de óbito. Em mortes violentas ou suspeitas, como acidentes, homicídios e suicídios, a necropsia é uma perícia oficial, realizada nos institutos médico-legais, e os seus resultados fazem parte do inquérito e do processo.
Nas mortes violentas ou suspeitas, o exame é determinado por lei e não depende de autorização dos familiares. O Código de Processo Penal estabelece que a perícia é indispensável quando a infração deixa vestígios.
Quem participa do exame
O responsável é sempre um médico. No instituto médico-legal, é o médico legista. No serviço de verificação de óbito e nos hospitais, é o médico patologista. Ao lado dele trabalha o auxiliar de necropsia, que prepara a sala, executa as técnicas sob orientação e faz a recomposição. Conforme o caso, participam também o fotógrafo técnico-pericial, o papiloscopista, que cuida da identificação pelas digitais, e peritos de outras áreas.
Primeira etapa: recebimento e identificação
Tudo começa na entrada do corpo. A equipe confere a documentação de encaminhamento, registra a data e a hora e atribui um número de controle. A identificação é confirmada por documentos, por reconhecimento de familiares e, sempre que possível, pela coleta de impressões digitais. Roupas e objetos são descritos e guardados. Esse cuidado inicial evita trocas e preserva a cadeia de custódia, que é o registro de tudo o que acontece com o corpo e com os vestígios.
Segunda etapa: exame externo
Antes de qualquer incisão, o médico examina o corpo por fora, da cabeça aos pés. São anotados o sexo, a idade aparente, a altura, o peso, a cor dos olhos e dos cabelos, as cicatrizes, as tatuagens e outros sinais particulares. Em seguida, observam-se os fenômenos cadavéricos, como a temperatura, a rigidez e as manchas de hipóstase, que ajudam a estimar o tempo de morte.
A parte mais detalhada é a descrição das lesões. Cada ferimento é localizado, medido e fotografado, com registro da forma, das bordas e da direção. Em muitos casos, o exame externo já indica o tipo de instrumento ou de evento que causou a morte, e o exame interno vem para confirmar e completar.
Terceira etapa: abertura das cavidades
O exame interno alcança três cavidades: a craniana, a torácica e a abdominal. Para o tórax e o abdome, o médico escolhe o tipo de incisão conforme o caso. As mais usadas são a que vai do queixo ou do alto do peito até a região do púbis, em linha reta, e a que parte dos dois ombros e se une no centro do peito antes de descer, formando o desenho de um Y. A pele e os músculos são afastados, e as costelas são seccionadas para a retirada do osso esterno.
Para o crânio, é feita uma incisão no couro cabeludo, de uma orelha à outra, passando pelo alto da cabeça. O couro é rebatido, e a parte superior do crânio é serrada e removida, o que dá acesso ao cérebro. A posição dessa incisão é escolhida para que não fique visível depois da recomposição.
Quarta etapa: exame interno dos órgãos
Com as cavidades abertas, o médico observa primeiro os órgãos no lugar, verificando a posição, a presença de sangue ou de líquidos e eventuais lesões. Depois, os órgãos são retirados, seguindo uma das técnicas clássicas. Em algumas, eles são removidos um a um. Em outras, saem em blocos ou em um conjunto único, o que preserva as ligações entre eles. A escolha depende do que se pretende investigar.
Cada órgão é pesado, medido e examinado por fora e por dentro, com cortes que revelam o seu interior. O coração, os pulmões, o fígado, os rins e o cérebro recebem atenção especial. Alterações de cor, de consistência e de tamanho, além de lesões, são descritas com precisão, porque é dessa descrição que sai a conclusão sobre a causa da morte.
Quinta etapa: coleta de amostras
Nem tudo é visível a olho nu. Por isso, são coletadas amostras para exames complementares. Sangue, urina e conteúdo do estômago seguem para a toxicologia, que pesquisa álcool, medicamentos, drogas e venenos. Fragmentos de órgãos vão para a análise microscópica. Em casos específicos, colhe-se material para exame de DNA e para pesquisa de vestígios. Cada frasco é identificado na hora, e o resultado desses exames pode levar dias ou semanas.
Sexta etapa: recomposição e liberação
Terminada a análise, os órgãos são devolvidos ao interior do corpo, as incisões são suturadas e o corpo é lavado. O objetivo é devolver a integridade e permitir que a família realize o velório. Uma recomposição bem feita, com suturas regulares e nos locais corretos, facilita o trabalho posterior da funerária e é uma demonstração de respeito. Depois disso, o médico preenche a declaração de óbito e o corpo é liberado.
O laudo e os prazos
O laudo necroscópico reúne a descrição do exame, os resultados dos exames complementares e as respostas às perguntas da autoridade. O Código de Processo Penal fixa o prazo de dez dias para a sua elaboração, que pode ser prorrogado em casos excepcionais. A mesma lei determina que a necropsia seja feita pelo menos seis horas depois do óbito, a não ser que os sinais de morte sejam evidentes.
Quanto à duração, não existe um tempo fixo. Um exame simples pode ser concluído em menos de uma hora, e casos complexos, com muitas lesões ou com necessidade de exames especiais, exigem várias horas.
Perguntas frequentes
Quanto tempo demora uma necropsia?
Depende do caso. Exames simples podem levar de trinta minutos a duas horas, e casos complexos exigem mais tempo. Os exames complementares podem demorar dias ou semanas.
A família pode recusar a necropsia?
Nas mortes violentas ou suspeitas, não, porque o exame é exigido por lei. Em mortes naturais, as regras dependem do serviço de verificação de óbito e da legislação local.
O corpo fica deformado depois da necropsia?
Não. Os órgãos são devolvidos, as incisões são suturadas e ficam em locais cobertos pelas roupas e pelo cabelo, o que permite o velório com o caixão aberto.
Quem faz a necropsia é o auxiliar?
Não. O exame é um ato médico, conduzido pelo legista ou pelo patologista. O auxiliar de necropsia executa as tarefas técnicas de apoio.
Como é feita uma necropsia no IML?
O médico legista examina o corpo por fora, abre as cavidades, analisa os órgãos, colhe amostras e, ao final, o corpo é recomposto e liberado à família.
Onde estudar Ciências Mortuárias
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Referências
- Brasil. Decreto-Lei nº 3.689/1941 (Código de Processo Penal), arts. 158, 160 e 162. Disponível em planalto.gov.br.
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 1.779/2005, sobre a responsabilidade médica no fornecimento da Declaração de Óbito.
- Literatura de medicina legal e de técnicas de necropsia utilizada em cursos de formação da área.