Escavação arqueológica com análise de material osteológico
07/08/2026

Ricardo III: o rei encontrado sob um estacionamento e identificado por DNA

Por admin

Em 2012, arqueólogos encontraram um esqueleto sob um estacionamento em Leicester, na Inglaterra. Análises de DNA confirmaram tratar-se de Ricardo III, morto na Batalha de Bosworth em 1485. O exame das lesões, publicado na revista The Lancet, reconstruiu seus últimos momentos com uma precisão impressionante, mais de cinco séculos depois.

A busca por um rei perdido

Ricardo III foi o último monarca inglês a morrer em combate, e o local de seu sepultamento se perdeu ao longo dos séculos. A escavação partiu de registros históricos que apontavam uma antiga igreja franciscana na cidade, cujo terreno hoje está sob a malha urbana. Logo no início dos trabalhos, apareceu o esqueleto de um homem adulto com ferimentos evidentes e uma curvatura acentuada da coluna, condição compatível com escoliose. Os relatos da época mencionavam que o rei tinha um ombro mais alto que o outro, e a datação por radiocarbono também era coerente com o período.

A confirmação genética

Indícios coerentes não bastam, e foi aí que o caso se tornou exemplar. Pesquisadores extraíram DNA dos restos e compararam com o de parentes vivos do rei. O DNA mitocondrial, transmitido pela linhagem materna, apresentou correspondência com um parente vivo dessa linha. Já os marcadores do cromossomo Y, da linhagem paterna, não bateram, o que os autores atribuíram a algum evento de paternidade divergente em alguma das gerações intermediárias, algo bem mais comum na história do que se imagina. O conjunto das evidências genéticas, arqueológicas e osteológicas fechou a identificação.

O que as lesões contaram

Onze ferimentos

A análise com tomografia e microtomografia identificou onze lesões perimortem, ou seja, ocorridas no momento da morte ou muito próximo dele, reconhecidas pela ausência de cicatrização e pelo comportamento típico do osso fresco. Nove estavam no crânio, o que sugere fortemente que o rei havia perdido ou retirado o elmo.

A causa provável

Duas lesões na base do crânio foram apontadas como as mais prováveis causas da morte, compatíveis com armas de haste e lâmina do período medieval. Uma lesão na pelve, potencialmente fatal, foi interpretada como provavelmente póstuma, já que a armadura da região dificilmente permitiria aquele golpe em combate. A ausência de ferimentos defensivos nos braços e nas mãos reforçou a hipótese de que ele ainda estava, de resto, armado.

Quando a perícia conversa com a história

O resultado impressiona porque coincide com relatos quase contemporâneos da batalha, que descrevem o rei lutando a pé, cercado, após perder o cavalo. Os achados também desfizeram exageros literários sobre sua aparência, mostrando escoliose, e não a deformidade caricata consagrada pela ficção. A ciência confirmou parte da narrativa histórica, corrigiu outra parte e deu ao caso um nível de detalhe que nenhum documento sozinho ofereceria. É um lembrete de que o corpo é, ele próprio, um documento.

Perguntas frequentes

Como identificaram o esqueleto de Ricardo III?

Pelo cruzamento de evidências arqueológicas, datação por radiocarbono, análise osteológica e DNA mitocondrial comparado com o de um parente vivo da linhagem materna.

Como Ricardo III morreu?

O estudo publicado na The Lancet apontou onze lesões perimortem, nove delas no crânio, e concluiu que as causas mais prováveis da morte foram dois golpes na base do crânio.

Ele era corcunda?

Os restos mostram escoliose, uma curvatura acentuada da coluna que deixava um ombro mais alto que o outro, bem diferente da deformidade exagerada retratada na literatura.

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Referências

  • Appleby J. et al. “Perimortem trauma in King Richard III: a skeletal analysis”. The Lancet, 2014. Disponível em thelancet.com.
  • King T. E. et al. “Identification of the remains of King Richard III”. Nature Communications, 2014. Disponível em nature.com.